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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"Para os modernistas, a arte não era somente uma produção estética: ela deveria assumir o compromisso ético de encarar os problemas do seu tempo"



O modernismo brasileiro é considerado o principal movimento cultural do Brasil. Iniciado na Semana de Arte Moderna, em 1922, se propagou por todos os campos culturais e artísticos do país, da literatura às artes plásticas. No livro O Brasil em uníssono (Casa da Palavra e Editora PUC-Rio), que reúne textos da antropóloga Santuza Cambraia Naves, publicado em maio de 2013, a autora analisa a influência do movimento na música e explica como ele inspirou as obras de grandes nomes da música popular brasileira como Chico Buarque e Caetano Veloso.

A obra apresenta todos os escritos da pesquisadora sobre o chamado modernismo musical. Santuza morreu em abril de 2012, quando já havia feito o roteiro detalhado da publicação. O Brasil em uníssono pertence à coleção Modernismo + 90, composta de dez livros sobre novos aspectos do modernismo, inclusive textos inéditos. Coordenador da coleção, o filósofo e professor Eduardo Jardim reuniu na publicação trechos do primeiro capítulo da obra Violão azul (Editora FGV) e os textos Bachianas brasileiras nº7: de Heitor Villa-Lobos para Gustavo Capanema (2001), Os regentes do Brasil no período Vargas (2008) e A canção popular entre Mário e Oswald: releituras do modernismo na década de 1960 (2010).

– Fiquei impressionado com os detalhes do roteiro do livro. Santuza deixou organizada toda a linha de raciocínio da obra bem antes da publicação – diz Eduardo Jardim.


Santuza investiga a concepção de música proposta por Mário de Andrade. O poeta defendia a nacionalização da música erudita no Brasil. Em linhas gerais, os modernistas consideravam artificial toda produção cultural do país que não tivesse elementos nacionais. Em Ensaio sobre música brasileira, de 1928, Mário de Andrade propõe que os compositores brasileiros se inspirem no folclore por causa dos traços de nacionalidade presentes nessa tradição. Segundo a autora, o maior representante dessa orientação musical foi Heitor Villa-Lobos devido à sua projeção internacional.



O modernismo se preocupou em consolidar o caráter nacional da arte. Buscou formar um estilo brasileiro a partir de diversos elementos da cultura do país. Segundo Santuza, o desafio dos compositores modernistas era fazer música ao mesmo tempo inovadora e comprometida em manifestar a identidade do Brasil. Para a pesquisadora, músicos como Tom Jobim, Chico Buarque e Caetano Veloso executaram o modernismo musical com mais sucesso do que Villa-Lobos. A autora afirma que, ao contrário dos artistas da MPB, o compositor não se aproximou do público urbano. Ao exaltarem a essência da nação, segundo ela, os primeiros músicos modernistas valorizaram muito o excessivo, o grandiloquente, o sublime e a monumentalidade.

De acordo com Santuza, nos anos 1960, em um momento de politização dos artistas, Caetano Veloso e Chico Buarque atualizaram as propostas defendidas por Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Para os modernistas, a arte não era somente uma produção estética: ela deveria assumir o compromisso ético de encarar os problemas do seu tempo. Segundo a autora, tanto as críticas da MPB ao regime militar quanto o caráter de contracultura da Tropicália mostram que os músicos participaram dos grandes debates do momento.

O texto intitulado O Brasil em uníssono é o único texto de Santuza Naves dedicado exclusivamente a Mario de Andrade, pensador que sempre intrigou a pesquisadora. Ela destaca o pensamento do escritor paulista de que atividade musical tem uma dimensão social e coletiva, negando qualquer solução individual nas artes. Na visão dos modernistas, a cultura brasileira deveria se modernizar para entrar no cenário internacional.



Santuza Cambraia Naves foi professora de antropologia do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Rio e pesquisadora de música popular, área de estudo que escolheu para investigar a articulação entre pensamento e arte. Valeu-se do conjunto de teorias das ciências sociais para desenvolver pesquisas sobre música. Abordou a obra de Caetano Veloso, a estética musical modernista, a canção popular nos anos 1960, a crítica musical no Brasil e os movimentos musicais recentes do hip-hop e do funk. Participou do Núcleo de Estudos em Literatura e Música (Nelim), centro de pesquisa do Departamento de Letras da PUC-Rio, e foi uma das criadoras de Desigualdade e Diversidade, a revista de ciências sociais da universidade.



O Brasil em uníssono é o quinto livro publicado da coleção Modernismo + 90. Já foram lançados Italo Campofiorito: olhares sobre o moderno, de Eduardo Jardim, Luiz Camillo Osorio e Otavio Leonídio, sobre o arquiteto que trabalhou com Oscar Niemeyer em Brasília e para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); A semana sem fim, de Frederico Coelho, a respeito da aceitação da Semana de Arte Moderna ao longo do tempo; Um poeta na política, de Helena Bomeny, que mostra as cartas de Gustavo Capanema para Mário de Andrade; e Modernismo em revista, de Ivan Marques, que traz um levantamento das revistas modernistas dos anos 1920.

Fonte:http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/Texto/Cultura/Ecos-do-modernismo-repercutidos-na-musica-brasileira-20377.html#.WYi-koTyvIU

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